Revista Portuguesa de Psicanálise 41(1): 7-16


Comentário ao artigo de Lawrence J. Brown: «From Ashes to Ashes: The Heroic Struggle of an Autistic Boy Trying to be Born and Stay Alive»


Rui Aragão Oliveira1


Lawrence Brown, psicanalista do prestigiado Boston Psychoanalytic Institute, conhecido pelos contributos diferenciados no campo da intersubjetividade e das reflexões aprofundadas sobre as transformações em psicanálise e na clínica analítica (Brown, 2019) surge-nos agora com um belo texto, de invulgar sensibilidade clínica, e de longo alcance. Nele, o autor expõe as dificuldades e fragilidades do analista no exercício da sua profissão de forma surpreendente e generosa.

Dizendo respeito ao acompanhamento psicanalítico de crianças com graves perturbações do espectro do autismo, integra também esses conhecimentos em quadros mais vastos de tratamentos, conjugando a inter-relação com outros técnicos e funcionalidades diversas. Ambicioso, este texto permite uma importante reflexão acerca da acessibilidade em psicanálise aos núcleos e formas autistas em pacientes crianças, ou em adultos, mesmo com estruturas predominantemente neuróticas. Deste modo, torna-se numa leitura de enorme riqueza para os profissionais de saúde mental e de uma atualidade urgente.

Parece-me particularmente relevante a perplexidade com que Brown humildemente se coloca em causa, antevendo a exigência da solicitação para acompanhar Sean, uma criança com grave perturbação autística. A evocação, no início do artigo, dos cíclicos cataclismos terrestes, que sabemos capazes de destruírem a vida no planeta, serve sem dúvida de enquadramento metafórico para a brutalidade do caso clínico. Podemos intuir como, no que ao terapeuta diz respeito, além do enorme conhecimento científico, deverão ser essenciais as particularidades do percurso pessoal, a oportunidade de contactos personalizados com este tipo de vivências, em que a sensibilidade e a motivação condicionam certamente a oportunidade e eventualidade do encontro analítico e o mínimo, e desejável, sucesso.

Reencontramo-nos facilmente com Frances Tustin, entre outros importantes autores, a quem todos reconhecemos o trabalho extraordinário para a compreensão mutativa dos objetos autistas (1980) e das formas autistas (1984a): elementos que impedem o funcionamento emocional e cognitivo das crianças, bem como o sentido de identidade e relacionamento com pessoas.

O esforço do terapeuta, bem demonstrado no entusiasmante caso clínico apresentado por L. Brown, tem como objetivo maior persuadir a criança a «desistir» das suas «distrações» autísticas, para se sentir capaz de se reencontrar com a vivência de proteção e consolo parental. Penso ser bem ilustrativa a sugestão veiculada por Tustin (1984b) de que o analista «does not get in the way of the relationship, but fosters and encourages it».

De facto, os objetos autistas parecem satisfazer, confortar e aparentar invulnerabilidade, substituindo-se e tornando impossível a relação com as figuras parentais reais. As associações com «autistic pocket» (Mitrani, 2011), a pele envelope de Anzieu ou os complexos processos de identificação adesiva de Meltzer tornam-se inevitáveis, referindo Lawrence Brown a ideia de uma vivência interna de sem-abrigo psíquico, de uma psique sem lugar seguro de existência. 

Assim, o potencial disruptivo da terapia analítica destas vivências «sem casa própria», numa espécie de homeless psíquica, é absolutamente duplo: desnorteante para o terapeuta, colapsante para o paciente. Tem uma responsabilidade inerente sobre o paciente e igualmente sobre as condições de trabalho analítico do psicanalista. Estamos provavelmente próximos da sobrevivência do analista dentro da sua própria mente.

São estados mentais que são silenciosamente encapsulados pelo uso de manobras autossensuais, e que implicam uma compreensão e manejo técnico próprios para possibilitar a aquisição de um ritmo de segurança na terapia. Estes estados tornam-se particularmente difíceis de localizar, porque não se encontram disponíveis para a comunicação via identificação projetiva.

O contacto e a comunicação com o analista são vividos não como elementos diferenciados, abrindo à separação, mas essencialmente no mero plano sensorial. O analista é usado para sentir (Mitrani, 2011), como a utilização do seu sonho contratransferencial ilustra brilhantemente. Penso que Brown sentiu no seu sonho aspetos muito primitivos e violentos, diferentes das ansiedades esquizoparanóides ou depressivas, de um pânico, de uma ausência de controlo, de uma descontinuidade e do perigo da não existência; será talvez uma ilustração da vivência de profundo desespero, procurando manter-se vivo num mundo interno profundamente assustador. O ser atacado pelo estado paranoide supõe algo já mais evoluído (o Self), que porventura se sinta em perigo. É diferente a vivência de um nómada, sem terra, com qualidades outras daquelas que procura proteger num qualquer território com o qual se identifica.

Clinicamente, percebemos a relevância da capacidade de imersão no processo analítico e da presença da função analítica do analista (e não de um simples tradutor ou explicador) quando em contacto com objetos e formas autistas. Será eventualmente este o elemento diferenciador, que permitirá ao analista ir além do mero reforço da fortificação da barreira autista, permitindo o seu progressivo relaxamento e recuperando a capacidade de ligação e comunicação criativa com o Mundo.




BIBLIOGRAFIA


Brown, L. J. (2019). Transformational processes in clinical psychoanalysis: dreaming, emotions and the present moment. Routledge.

Mitrani, J. (2011). Trying to enter the long black branches: Some technical extensions of the work of Frances Tustin for the analysis of autistic states in adults. International Journal of Psychoanalysis, 92 , 21–42. doi: 10.1111/j.1745-8315.2010.00357.x

Tustin, F. (1980). Autistic objects. International Review of Psycho- Analysis, 7(1), 27–39.

Tustin, F. (1984a). Autistic Shapes. International Review of Psycho- Analysis, 11, 279–290.

Tustin, F. (1984b). The growth of understanding. Journal of Child Psychotherapy, 10(2), 137–149.


1 Presidente da Comissão de Ensino e Psicanalista Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: raragao20@gmail.com